
Deveria ser-nos dada a possibilidade de nascermos de novo ou de voltarmos atrás no tempo, sempre que nos apetecesse.
No dia do nosso aniversário, por exemplo, reuniríamos familiares e amigos e diríamos:
- Hoje faço de novo 20 anos!
E de imediato os ponteiros dos relógios rodariam em sentido contrário a uma velocidade vertiginosa.
Á medida que o tempo recuasse desapareceriam a pouco e pouco os cabelos brancos, as rugas, as deformações das articulações, a hipertensão, a diabetes, o cancro da próstata, a doença de Alzheimer e todas as demais maleitas que nos possam afligir com a idade.
A pele tornar-se-ia mais clara, mais brilhante, mais flexível e os nossos pulmões respirariam com maior facilidade.
De olhar brilhante, sorriríamos com todos os nossos dentes imaculadamente brancos e o nosso hálito seria fresco e perfumado como a hortelã-pimenta.
Apenas guardaríamos a sabedoria adquirida ao longo dos anos e todas as nossas lições de vida, que são muitas e importantes demais para serem esquecidas, mas que de pouco nos valem quando o nosso tempo de existência encurta a cada ano.
Quando se chega à meia-idade, de quase nada nos serve já saber-se muita coisa, porque a vida transformou-se em rotina e qualquer um de nós pode adivinhar de véspera o que nos acontecerá no dia seguinte,como se todos fossemos bruxos ou astrólogos ou numerólogos ou cartomantes ou tarólogos ou videntes.
É evidente que as lições de vida seriam mais importantes se o tempo recuasse e nos desse uma segunda, terceira, quarta ou mesmo quinta oportunidade.
Gostaria que o tempo voltasse para trás, como cantava o Tony de Matos quando eu era menina , ele que por acaso era o cantor galã favorito da minha mãe.
Era ele que também dizia que “o destino marca a hora pela vida fora, quem havia de dizer?”.
A minha mãe nunca me disse que o tempo voava.
Nem nunca me falou de escolhas, porque também a mãe dela se esquecera de a avisar.
Ensinou-me tudo o que uma mãe ensina a uma filha e tudo o que ela deve levar no
enxoval menos a questão da idade e do tempo.
Mas eu deveria ter dado ouvidos ao que o seu cantor preferido cantava,pois logo ficaria a saber que o tempo não volta para trás nem nos dá aquilo que perdemos.
E acrescento que se o destino marca a hora, há destinos que nunca passam de desencontros e que o meu raramente me marcou a hora certa no sítio certo com a pessoa certa e que, mesmo quando isso esteve prestes a acontecer, houve sempre algum quiproquó pelo meio para estragar a festa.
Assim, se pudesse, guardaria, apesar de tudo as lições de vida para não voltar a ficar presa na armadilha do tempo. Mas adiante…
Se voltássemos a ter 20 anos recordaríamos todos as más escolhas ou escolhas erradas ou ainda as escolhas que não fomos nós a escolher porque fomos débeis
ou medrosos ou inseguros e deixámos que fossem outros a escolher por nós.
Recordaríamos as pessoas que amámos enquanto filhos, pais, padrinhos, afilhados, netos, tios, primos, vizinhos, amigos, namorados, amantes ou esposos.
Recordaríamos as pessoas que não soubemos amar ou que amámos mal
ou que amámos pouco ou até demais.
Recordaríamos os momentos em que nos apeteceu dizer “amo-te” ou “quero-te”
mas não dissemos “amo-te” ou “quero-te” por pudor, por medo, por estupidez,
por insegurança ou por outro motivo qualquer decerto menos importante que o amor.
Se renascêssemos com 20 anos com a sabedoria dos 50, seríamos talvez mais felizes.
Ou não.Porque aos 50 anos, ainda se sabe tão pouco da vida.