sábado, abril 22, 2006

Itinerários




Um itinerário breve entre a casa e o café. Um percurso urgente entre um resto incerto de sono e a certeza da vigília. Talvez o percurso diário, repetidamente igual e sempre diferente, entre a morte cerebral e uma esperança de vida.

Levanto-me. Deambulo pelo corredor e chego à cozinha. Copo de leite quente. Regresso ao corredor. Paragem na casa de banho. Um duche morno e depois a indecisão da escolha. Saia ou calças? Calças. Por ser mais simples. Visto-me. Um relance no espelho. Toque de escova no cabelo. Uma nuvem de maquilhagem. Devagar. No silêncio da casa. Mesmo muito devagar. Gestos lentos e esforçados. Mente confusa resistindo à invasão dos sonhares nocturnos. Mente que se nega a pensar.

Está na hora. Saio de casa. Fecho a porta. Aguardo a chegada do velho elevador. Cansado e cheio de manias. Lá me leva aos solavancos até ao rés-do-chão. Mal reparo nos vasos de plantas com os quais a nova vizinha do quarto andar atafulhou a entrada do prédio. Desvio-me a custo das folhas da pata de elefante, que invade o meu espaço.

Chego à rua e viro à esquerda. O passeio não terá mais de duzentos metros de comprimento. Longo caminho até ao café da esquina.

Sigo cabisbaixa e soturna para não ter de cumprimentar ninguém. A calçada magoa-me a planta do pé direito. Penso que terei de mandar pôr meias solas novas nos sapatos. Esta terra está cheia de calçadas irregulares.

Continuo, numa marcha lenta, evitando as espinhas de carapau e os bagos de arroz amontoados no cantinho onde a Dona Quitéria alimenta os gatos vadios cá do bairro. A Dona Quitéria levanta-se de madrugada, mais fresca do que uma alface. Sempre elegante. Sempre de saltos altos.

Do outro lado da rua, há um parque que ainda dormita. Esta noite foi ventosa e o único sinal de vida é um enorme chapéu branco, que escapou da esplanada e dança, liberto, na relva.

Os carros rodam na faixa dupla e aproximam-se a alta velocidade da rotunda. Aqui são obrigados a parar para mais lentamente se dispersarem pelas ruas da cidade , o que me permite atravessar sem pressas.

Chego ao destino. O café mais frequentado do quarteirão. Fervilha de gente. A mania que esta malta tem de correr. Chega a ser irritante. Muitos deles apenas têm urgência de marcar o ponto no emprego, para mais rapidamente se sentarem e adormecerem frente ao serviço. Histórias… outras histórias.

Peço uma bica. O café quente bate-me fundo na garganta seca. O ritmo cardíaco começa a dar sinais de vida. Chego a sentir os neurónios a acenderem um a um, quais lâmpadas fluorescentes.

Reacordo. Saio do local e deixo que o vento sopre de mim a restante letargia .

A calçada parece mais certinha. Talvez os sapatos aguentem mais uma semana ou duas. Atravesso a faixa de rodagem saltitando por entre os carros. De longe, retribuo o aceno que a Dona Quitéria me faz, rodeada pelos seus gatitos adoptivos, e sorrio.

No jardim, as crianças começam a chegar para a disputa dos escorregas e dos baloiços . O dono da esplanada voltou a prender o chapéu e um vendedor de balões parece compor um gigantesco ramalhete colorido no meio do relvado. Ligaram a rega e o cheiro a terra fresca espalha-se pelo ar.

Regresso levemente a casa. Afinal, as plantas da vizinha até dão uma certa graça à entrada do prédio. Graça e vida!

Como essa vida que todos os dias reencontro na minha chávena de café.






2 comentários:

clotilde disse...

A diferença que faz um café. Um líquido negro, espesso, aromático, amargo, quente... hummm já me puseste com vontade de ir tomar um. O que vale é que o tenho feito na cozinha!

Adorei o texto, muito bem escrito e descrito.
Um aceno de mão para a D. Quitéria e não te esquieças de avisar a vizinha do 4º andar para regar as plantas.

um beijo , aqui do 2º esquerdo

clotilde disse...

Os itinerários tornam-se maquinais, muitas vezes é a única forma de os conseguirmos fazer.

Um vez li que a rotina é a única forma de fazercertas coisas que nunca faríamos se não tivessemos rotina, e não é que é verdade?

Bom dia, solarengo e azul

Beijoca